Era uma noite fria de segunda-feira, lá estava eu na escola. O tempo passava rápido e eu estava sendo cínico com a professora de português. Estava muito feliz por ter um novo celular, fones de ouvido e o cara que me devia uma grana ter me pago. Nada me abalava.
Lá estava eu, saindo uma aula mais cedo... bem, aí começam as coisas ruins, por mais que isso parecesse bom. Caminhando para sala 3ºK, para passar a última aula com alguns amigos, eu, meus fones de ouvido e meu violão encapado tivemos uma notícia péssima:
–Aê negada, vim passar essa aula com vocês! :D – eu disse bem alegre.
–Aê! Mas é aula da Pastelera Suely... – ressentiu Fábio.
–Pastelera? FUUUUUUUU!
(No futuro explicarei quem é a pasteleira. Adiante.)
Saí bem rápido da sala para poder sair da escola e não ficar preso no pátio. Saindo da escola encontrei com um amigo e fomos para o ponto de ônibus conversando sobre as favelas que cercam o bairro onde ele mora:
–Cara onde você mora o povo é tão necessitado que eles assaltam chinelo de quem ta passando na rua. – brinquei.
–É velho, outro dia eu tava mascando um chiclete e o cara disse “PASSA ESSE CHICLETE NA SUA BOCA QUE É UM ASSALTO”. – continuou ele.
Nos despedimos, pois ele tomou seu ônibus.
Sentado na frente da loja fechada, eu peguei meu celular antigo que não funcionava, mas era um bom chaveiro, e o coloquei no bolso de fora da minha jaqueta de couro. Peguei meu celular novo que tocava um AC/DC e o coloquei pelo bolso de dentro que fica no peito.
Passei um tempo olhando a rua, o Carrefour do outro lado da rua. Estava esperando meus amigos do 3ºK.
Decidi me levantar e me afastar um pouco do ponto porque eu vi uma garota bem bonita passando. Andei um pouco com meu violão em punho. Parei. Estava na frente de outra loja fechada, fiquei lá, esperando.
Após alguns minutos passa um homem e diz:
–Ei, eu moro em Guarulhos, e eu preciso de R$3,80, tem como de dá uma ajuda?
–Pow, cara, não tenho um real (e não tinha mesmo).
–Não, olha, por favor eu preciso ir pra casa.
–Entendi, mas não tenho um real.
–Você não ta entendendo, eu saí da cadeia hoje e preciso ir pra casa.
–Hmm...
–Então me dá 3,80.
–Mas eu não tenho.
–Olha, senta aí.
–Não senhor, vamos conversar de pé, homem pra homem.
–Não precisa em chamar de senhor moleque, senta aí.
–Não vamos conversar que nem homem.
–Tá me chamando de quê?
–De homem, né, porra.
–Ah, entendi. Então, olha eu saí da cadeia hoje depois de dez anos. Eu só preciso pegar o ônibus, tem um cara que me deve dez mil, digo, dez milhão, não dez cruzeiro.
–Ta cara, mas eu não tenho dinheiro, o que cê quer? Livro? Pega aí.
–Não, livro não vai me ajuda, olha me dá 3,80, eu to trepado(armado).
Eu tava pouco me fodendo pra aquele cara, daí ele mostrou a arma e eu pensei “não é que o cara ta armado mesmo, filho da puta” e ele continou falando:
–O que é isso na sua orelha, fone? Você tem celular?
–Ôpa, tenho sim! – mal esperando o momento pra ser um bom troll.
–Hmm... então, tem um cara que me deve dez milhão. Deixa eu ver o celular.
Mostrei o celular-chaveiro pra ele e ele disse:
–Não, chave eu não quero, tira elas.
– Ah, beleza, vo tirar aqui. – e eu querendo rir descontroladamente.
–Vai rápido aí.
–Tudo bem, to tirando. – fazendo hora pra ver se aparecia algum amigo meu.
–Não, deixa que eu tiro.
Ele pegou e quebrou o cordãozinho, deu olha olhada no celular e perguntou:
– Esse celular é bom?
–Claro que é, eu não tenho coisa velha.
–Tá bom então, agora eu vô pra lá e você não fala nada, não chama a polícia. Quando eu te trombar de novo eu devolvo o celular. Isso deve dá pra pega o ônibus.
–Belê cara. Vou sair vazado.
Ele saiu andando e eu abri um sorriso.
Não que eu me considere um troll memorável, porque eu tecnicamente fui assaltado. Mas eu me senti um troll memorável.
Depois disso contei o acontecido aos meus amigos e o resultado foi esse:

